• Miguel Seguin Neto

EDITORIAL - RESSIGNIFICANDO ABRAÇOS: UM ATAQUE À ESPERANÇA


Abraçar. Um gesto tão íntimo, tão comum, tão aceito e cheio de significados. Muitas pessoas sentem falta de abraçar e serem abraçados em tempos de pandemia. Não sentem falta somente do ato de abraçar em si, mas falta do que esse gesto transmite e significa. Um abraço é uma forma de demonstração de vários sentimentos e de transmissão de sensações como paz, amor, carinho, compaixão, saudade, acolhimento e segurança. Para além do abraço literal entre duas ou mais pessoas, eles estão muito presentes na nossa linguagem e em metáforas significando desejo, força e superação. Afinal, muitos são os que “abraçam” as oportunidades, ideias, a vida e a esperança.

Em nosso meio, existem muitas pessoas que se abraçam à esperança em suas maiores dificuldades. Quando se veem acuadas, diante de grandes desafios e perante barreiras que aparentam ser intransponíveis, o menor sinal de luz ao fim do túnel é o estímulo necessário para que esse abraço, que ao mesmo tempo demonstra desespero e força, aconteça. Não precisamos sequer imaginar uma situação tão extrema e desalentadora que proporcione essa luta diária e esse agarramento tão forte à esperança. Um exemplo palpável e presente em muitas famílias brasileiras são as doenças crônicas. Nesse editorial, falaremos especificamente de pessoas, cidadãos e irmãos brasileiros nossos, crianças adultos e idosos que convivem diariamente com doenças neurológicas.

Epilepsia, Alzheimer, Parkinson, traumas neurológicos, além de transtornos psiquiátricos como Transtorno do Estresse Pós-Traumático, ansiedade, depressão e mais outras 20 patologias “intratáveis”. Para 14 mil famílias brasileiras, o termo “abrace esperança” não é (era) mais uma simples expressão motivacional. A Associação Brasileira de Apoio Cannabis Esperança (ABRACE Esperança) é uma associação sem fins lucrativos que, por uma decisão liminar concedida em 2017, tem (tinha) autorização para plantar, manusear e produzir óleos de cannabis, exclusivamente para fins medicinais e terapêuticos. Dessas 14 mil famílias atendidas, mais de 1000 eram atendidas gratuitamente, por falta de condições financeiras.


Esses medicamentos dispensados ajudam e promovem melhoras significativas nesses quadros acima mencionados. Mais ainda em casos em que o paciente apresenta resistência e não responde aos medicamentos tradicionalmente usados. Melhoras significativas e superiores ao tratamento tradicional e efeitos colaterais reduzidos são largamente conhecidos na literatura científica e pelos pacientes e famílias atendidos pela ABRACE.


Entretanto, esse abraço à esperança pode se tornar um abraço de tristeza e luto. No dia 22 de fevereiro de 2021, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) entrou com um pedido no Tribunal Federal Regional da 5ª Região (TRF-5) para suspender a liminar concedida à ABRACE e impedir a associação de continuar os seus trabalhos de plantio, manuseio e dispensação. O argumento apresentado foi que a associação estaria produzindo em escala industrial e que isso desrespeita a liminar concedida. No dia de publicação desse editorial, o TRF-5, por meio do desembargador federal Cid Marconi Gurgel de Souza, emitiu uma decisão em favor da ANVISA, acatando o pedido da agência reguladora.


Mais uma vez, esses pacientes que viram a luz acender no fim do túnel, foram jogados à escuridão. Uma conquista tão recente e tão valiosa lhes foi tirada por interesses inomináveis. Sabe-se que um dos princípios da Administração Pública é a defesa do interesse público. Nesse Sentido, lançamos as perguntas: o interesse defendido pela ANVISA ao entrar com essa ação é público? O que a sociedade perde quando 14 mil famílias obtêm tratamento para suas condições e melhoram sua qualidade de vida? A exploração de uma planta para benefício humano deve ser reprimida tão violentamente a ponto que milhares de pacientes que se viram melhores nesses poucos, mas frutíferos anos de tratamento com a cannabis proporcionados pela ABRACE tenham vilipendiados o seu direito à saúde garantido constitucionalmente? O Estado cumpre seu dever constitucional de promover a saúde dos brasileiros com essas ações?


Hoje, o LNC-UNILA e toda sua equipe de colaboradores se posiciona solidário à ABRACE e sua linda missão e trabalho. Os abraços que mandamos hoje à associação e às famílias que dependem dela são de consolo e união. Demonstramos nossa indignação à mais um ataque à vida promovido pelo Estado brasileiro em um momento já muito difícil para mais de 250 mil famílias enlutadas. Que nossos abraços, distantes e ao mesmo tempo sinceros sirvam de alento para cada uma dessas famílias citadas e à todos que precisam de um abraço nesse momento tão difícil para nossa sociedade. Desejamos intensamente que a esperança volte, para que possamos abraçá-la de novo e que possamos em breve nos confraternizar para comemorar uma luta bem sucedida em favor da vida, da ciência e da saúde.


Abraços.

#abracenaopodeparar

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