• César Lanzoni

Ayahuasca: o que é e por que é utilizada?

Atualizado: 19 de Dez de 2019



Você com certeza já ouviu falar sobre algum tipo de chá que tinha propriedades para curar gripes, resfriados e dores. Mas, você já ouviu falar sobre um chá que é capaz de curar até mesmo a depressão? Isso é o que novos estudos vêm demonstrando a respeito da ayahuasca.


Conhecida pelos povos nativos da América há séculos, a ayahuasca tem sido utilizada como remédio em cultos religiosos e ritos de passagem por diversas tribos ao longo de todo o continente. Essas práticas se reduziram muito após a colonização européia da América, mas em algumas regiões mais afastadas da Amazônia, o consumo do chá se manteve da forma tradicional. Esses grupos conseguiram manter a tradição viva e, em 1946, o brasileiro Oswaldo Gonçalves de Lima conseguiu isolar a substância psicodélica presente na bebida e iniciar pesquisas sobre suas propriedades.


O “chá do Santo Daime”, como também é conhecida, é feito a partir de duas plantas. A primeira é o Jagube, uma espécie de cipó que libera moléculas chamadas de beta-carbolinas. A segunda é a Chacrona, uma planta cujas folhas liberam o DMT, responsável pelo efeito alucinógeno.


Essas duas plantas são necessárias porque nosso corpo destrói as moléculas de DMT muito rápido quando estão sozinhas, antes mesmo delas fazerem efeito. As beta-carbolinas conseguem “desativar o sistema de segurança” que destruiria essas moléculas e permitem então que o DMT chegue ao cérebro, onde fará efeito. Além disso, essas moléculas têm efeitos terapêuticos para depressão e ansiedade parecidos com os efeitos de alguns antidepressivos, aumentando o tempo de ação da serotonina no cérebro. Este neurotransmissor é responsável pela regulação do humor, sono, apetite e outras sensações corporais. Sua duração prolongada consegue amenizar os sintomas causados pela depressão, transtornos de ansiedade e dependência química.


Já o DMT tem a ação psicodélica, que promove alucinações, pensamentos acelerados e introspecção. Usuários relatam experiências parecidas com sonhos, revendo pessoas e lugares conhecidos ou relembrando acontecimentos passados. A introspecção que segue o efeito alucinatório promove reflexão em problemas pessoais, aflorando emoções intensas e permitindo novas compreensões sobre eventos traumáticos.


O DMT também pode permitir a criação de novos neurônios, segundo estudos feitos em laboratório, de forma que a experiência com a Ayahuasca pode gravar no cérebro as novas compreensões estimuladas pela alucinação, traçando um novo caminho por onde nossa lembrança é processada. Este “reset” em grupos neuronais pode alterar os sentimentos associados a uma memória, através da ressignificação de experiências, traumas e fatos que possam ter contribuído para um quadro depressivo. Voluntários que fizeram uso da ayahuasca relatam que, durante e após a experiência, houve um processo de introspecção que os levou a entender melhor determinados fatos que consideravam como “feridas abertas”. O exato mecanismo pelo qual a substância age é incerto, mas é fato que acontece.


Hoje, no Brasil, o uso da Ayahuasca é restrito para fins religiosos, sendo proibido seu uso para fins recreativos ou medicinais. Com o avanço das pesquisas e o crescente número de evidências sobre seus potenciais de tratamento, a Ayahuasca é uma forte representante dos promissores fármacos psicodélicos. Você pode ler mais sobre medicina psicodélica clicando na aba "Blog" do nosso site.

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Responsável: Francisney Pinto do Nascimento, PhD

 

 

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