• César Lanzoni

A medicina psicodélica vem aí!

Atualizado: 19 de Dez de 2019





Você provavelmente está bem familiarizado com a ideia de que depressão se trata com antidepressivos. Sertralina, fluoxetina, citalopram e muitos outros comprimidos são receitados em grande escala para a população na promessa de fornecer para o cérebro uma maior quantidade de “moléculas da felicidade”. Mas será que não existem alternativas? Bom, existem, mas podem parecer mentira no primeiro momento.


Nas décadas de 50 e 60, drogas como a psilocibina (substância responsável pelo “barato” do cogumelo) e o LSD começaram a ser estudadas e sintetizadas, iniciando o movimento da medicina psicodélica. Os resultados encontrados nas primeiras pesquisas eram muito promissores, apresentando potencial para tratar dependências químicas, depressão em pacientes terminais, dor, entre outras doenças. Mas, com a disseminação dessas drogas na década de 60 para uso recreativo e sua proibição, testes em humanos foram suspensos por quase três décadas, fechando as portas para essas possibilidades terapêuticas.


Mas nos últimos anos essas pesquisas tem sido retomadas, com auxílio de novas compreensões médicas e farmacológicas. Hoje, entendemos melhor seus riscos e benefícios, possibilitando testes seguros de uso para tratamento. Cientistas conseguiram comprovar melhoras significativas nos níveis de ansiedade e depressão em pacientes críticos, como aqueles com câncer terminal. Dessa forma, esse tratamento tem potencial de aumentar a adesão ao tratamento, diminuição do tempo de hospitalização, aumento da qualidade de vida e diminuição das taxas suicidas.


A ação dessas drogas se dá pela ligação a receptores de serotonina. De uma forma simplificada, podemos dizer que as moléculas da psilocibina e do LSD são parecidas com as moléculas da serotonina e por isso, encaixam no “botãozinho” (chamado tecnicamente de receptor) que tem capacidade de ligar ou desligar um neurônio. Essa ação vai fazer com que aconteçam coisas diferentes, dependendo da parte do cérebro aonde atua, da quantidade de moléculas no local e até de pessoa para pessoa. No caso dessas substâncias, nós sofremos as alucinações.


Os psicodélicos, conforme indicam as pesquisas, também são capazes de dar um “reset” no cérebro, permitindo alterar memórias e sentimentos que estavam gravados em grupos de neurônios. Estes fármacos alteram os caminhos que as informações estão acostumas a seguir quando pensamos nessas lembranças. E, assim como duas ruas tem visões diferentes de um mesmo quarteirão, este tratamento possibilita que o paciente veja aquela experiência sob uma nova perspectiva. O MDMA (popularmente chamado de ecstasy) já está em estágios avançados de testes nos Estados Unidos para o tratamento de síndrome do estresse pós-traumático, doença causada por memórias de acontecimentos graves. Ela é muito comum, por exemplo, em militares que voltam de guerras.


Quando usadas em baixas doses, os medicamentos psicodélicos podem auxiliar na psicoterapia por facilitar a exploração do inconsciente. Mas no caso da terapia psicodélica é administrada quantidades relativamente altas, buscando causar uma grande alucinação e a experiência de perda do ego. A perda do ego é uma sensação comumente relatada por quem faz uso de psicodélicos, descrita como perda do sentimento de individualidade, uma conexão profunda entre todos os seres vivos e o meio ambiente.


Esses relatos, assim como o debate sobre o uso de substâncias ilegais dentro da medicina para tratamentos, têm ganhado cada vez mais espaço na sociedade atual. Exemplo disto é o autor, jornalista e professor Michael Pollan, que em 2018 lançou um livro chamado “How to change your mind” – ou Como mudar sua mente, em português – atingindo a primeira posição na lista dos livros mais vendidos do New York Times na categoria não-ficcional. Neste livro, o autor escreve sobre a história dos psicodélicos, relatos de experiências e as recentes descobertas e conquistas que a medicina psicodélica tem feito. Bom, acredito que em poucos anos, ele terá muito mais sobre o que escrever.

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Responsável: Francisney Pinto do Nascimento, PhD

 

 

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